
Este é um livro bem estranho.
Vencedor do World Fantasy Award de Melhor Romance, A Sombra do Torturador, de Gene Wolfe, publicado originalmente em 1980, é o primeiro volume de O Livro do Novo Sol, uma série composta por quatro livros (e existe um quinto livro, de 1987). O leitor interessado já deve se preparar para isso, pois o final do primeiro livro não dá nenhuma sensação de conclusão parcial. É apenas um corte, uma pausa, como o próprio narrador, Severian, parece dizer.
A obra é frequentemente considerada precursora do gênero grimdark, embora tenha características bastante diferentes de boa parte das obras que hoje associamos ao gênero.
Narrado em primeira pessoa, o livro se passa em um mundo aparentemente medieval, mas no qual aparecem, aqui e ali, evidências de que existe uma tecnologia extremamente avançada, quase nunca explicada.
Severian é um aprendiz de uma guilda de torturadores, um grupo contratado para torturar pessoas condenadas e, em alguns casos, executar suas sentenças. Entretanto, um acontecimento, uma pessoa, na verdade, leva Severian a sair da Fortaleza onde viveu toda a sua vida para explorar o mundo exterior.
A estrutura narrativa é bastante errática. Ao ler, não identificamos claramente os três atos ou qualquer outra estrutura de enredo típica que encontramos em muitas obras de fantasia.
Os encontros e a apresentação de novos personagens acabam soando aleatórios. Mas, ainda assim, surge a pergunta: por que o livro é considerado tão bom? Por que foi premiado?
Em parte, devido à prosa interessante do autor, que transmite ao protagonista e narrador, Severian, um carisma e um jeito particular de contar sua história que acabam despertando uma constante curiosidade no leitor. O que vai acontecer a seguir?
Outro ponto é uma sensação de imprevisibilidade. Não dá para realmente adivinhar o rumo que a história vai seguir.
Em sua jornada, Severian encontra alguns personagens peculiares, que vão ajudando a formar uma impressão de peregrinação, como se a história fosse simplesmente a de um andarilho que deixa seu lugar de origem e passa a conhecer um mundo muito maior e mais estranho do que aquele em que viveu.
Um artifício interessante utilizado pelo autor foi estabelecer que Severian possui uma memória perfeita. Isso favorece a suspensão da descrença por parte do leitor, pois temos a impressão de que aquilo que estamos lendo é o relato preciso de alguém que se lembra de tudo o que viveu.
Severian parece estar escrevendo um livro, recontando sua própria vida, mas sua narrativa não é linear nem transparente. Ao longo da leitura, percebemos contradições e encontramos diversos enigmas.
A história se estabelece em camadas densas que desafiam o leitor, pois muitos fatos e descrições não são explicados. E, ainda assim, despertam curiosidade. Muito disso acontece porque Severian assume que o leitor está familiarizado com aquele mundo, que, em alguns aspectos, é completamente alienígena para nós.
A história em si não tem uma grande quantidade de ação acontecendo, mas apresenta muitos momentos de reflexão e filosofia introspectiva. É uma obra que parece estar mais interessada em apresentar uma experiência e provocar perguntas do que em conduzir o leitor por uma trama convencional.
Uma coisa que me incomodou um pouco ao final da leitura foi perceber que muita coisa lançada no início da narrativa ainda continuava no ar, sem respostas.
Um fim inconclusivo?
Talvez. Mas tudo bem. Vou ler os demais livros da série e ver onde isso vai dar.







