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A Queda de Hyperion – Dan Simmons

Depois de terminar Hyperion, é praticamente impossível não querer saber como aquela história termina. A Queda de Hyperion faz exatamente isso: retoma os acontecimentos imediatamente após o final do primeiro livro e entrega a conclusão dessa primeira grande saga criada por Dan Simmons.

Uma das primeiras coisas que o leitor percebe é que a estrutura narrativa mudou completamente. Se Hyperion era construído a partir dos relatos individuais dos peregrinos, em uma clara homenagem a The Canterbury Tales, aqui encontramos um romance muito mais linear e tradicional. Boa parte da narrativa acompanha Joseph Severn, uma espécie de “backup” do cíbrido John Keats apresentado anteriormente, enquanto os acontecimentos envolvendo os peregrinos continuam a se desenrolar em paralelo.

Confesso que demorei um pouco mais para entrar no ritmo deste segundo volume. O início me pareceu mais lento, e o recurso de fazer Severn acompanhar os peregrinos por meio de sonhos soou um tanto artificial à primeira vista. Felizmente, essa impressão desaparece conforme a história avança e percebemos que essa escolha possui um propósito importante dentro da própria lógica do universo criado por Simmons.

O que mais gostei foi ver como inúmeras perguntas deixadas em aberto no primeiro livro vão sendo respondidas aos poucos. Nada acontece de forma apressada. Pelo contrário: cada revelação parece surgir no momento certo, encaixando mais uma peça desse enorme quebra-cabeça. Ainda assim, Simmons tem o cuidado de não explicar absolutamente tudo, preservando parte do fascínio e do mistério que tornam esse universo tão singular.

Também chama atenção a mudança de escala. A história deixa de acompanhar apenas a jornada dos peregrinos em Hyperion e passa a mostrar um conflito que envolve diversos mundos, a guerra contra os desterros, disputas políticas, religião, inteligência artificial, filosofia, poesia e reflexões sobre o futuro da humanidade. O universo, que já parecia enorme no primeiro livro, torna-se ainda mais ambicioso.

A prosa de Dan Simmons continua sendo um dos grandes destaques da série. Em muitos momentos ela é densa, descritiva e quase poética, repleta de referências literárias, filosóficas e religiosas. Isso talvez afaste leitores acostumados a romances de ficção científica mais cinematográficos, movidos quase exclusivamente pela ação. Em compensação, quem aprecia uma narrativa que convida à reflexão provavelmente encontrará aqui uma leitura extremamente recompensadora.

Outro aspecto que me agradou foi perceber como os personagens amadurecem ao longo da história. As relações construídas entre os peregrinos, iniciadas no primeiro livro, tornam-se muito mais fortes e convincentes, dando ainda mais peso emocional aos acontecimentos finais.

E falando no final… gostei bastante da forma como Simmons conduz o encerramento. Em determinado momento tive a impressão de que a história já havia chegado ao fim, apenas para descobrir que ainda havia acontecimentos importantes pela frente. Esse “falso final” tornou o desfecho ainda mais surpreendente e satisfatório.

No fim das contas, continuo preferindo Hyperion como experiência de leitura. Sua estrutura incomum e as histórias individuais dos peregrinos ainda me parecem mais memoráveis. Mas A Queda de Hyperion é exatamente o complemento que aquela obra precisava. Os dois livros formam uma única narrativa.

Mais uma vez, procurei evitar spoilers nesta resenha. Parte da magia dessa série está justamente em descobrir, pouco a pouco, como todas essas peças se encaixam. Afinal, é isso que a boa ficção faz de melhor: ela amplia nossos horizontes e nos permite enxergar o mundo por novas perspectivas.

Coimaginar esse unverso ficional te transforma. Super vale a leitura!

Série Dungeon Crawler Carl, livros 6 a 8.

Dungeon Crawler Carl continua insano — mas começa a mostrar o peso da própria ambição

Já compartilhei aqui minhas impressões sobre os primeiros livros da série Dungeon Crawler Carl, de Matt Dinniman.

Você pode conferir as resenhas anteriores:

Quando comecei, ainda não tinham saído traduções aqui no Brasil. Mas agora sim, já temos os primeiros, começando com:
Carl, o explorador de masmorras: Uma literatura de RPG intergaláctica

Também tive a oportunidade de traduzir e comentar uma entrevista com Matt Dinniman, onde o autor fala sobre a criação da série, o crescimento inesperado do público e alguns bastidores desse universo caótico.

Agora cheguei aos livros 6, 7 e 8: The Eye of the Bedlam Bride, This Inevitable Ruin e A Parade of Horribles.

Sem entrar em spoilers importantes, posso dizer que a série continua sendo uma das experiências mais criativas e imprevisíveis que já encontrei. Ao mesmo tempo, esses volumes mostram uma mudança interessante: conforme a história cresce, o universo se torna mais complexo, o elenco aumenta, as conspirações galácticas ganham espaço e o próprio funcionamento da dungeon começa a revelar camadas cada vez mais bizarras.

O resultado é uma leitura que continua extremamente divertida, mas que também passa a enfrentar alguns dos desafios naturais de uma saga gigantesca. Há momentos brilhantes, alguns dos melhores da série até agora, mas também trechos em que a quantidade de personagens, sistemas, facções e regras começa a pesar no ritmo.

Ainda assim, Carl, Donut e sua improvável família de sobreviventes continuam carregando a história com o mesmo humor absurdo, senso de aventura e carga emocional que fizeram de Dungeon Crawler Carl um fenômeno entre os leitores de fantasia e ficção científica.

Vamos aos livros, com possível spoilers leves, a partir daqui:

Livro 6The Eye of the Bedlam Bride

Certamente o meu favorito entre esses três. Este foi muito hilariante. Total vibe de Pokémon Trading Card Game, kkk. Ri demais dos totens. O Geraldo então é sensacional. Também adorei os cenários em Cuba.

Os orixás cubanos/brasileiros também são muito legais de se ler. Neste livro a Samantha (cabeça de boneca sexual endemoniada) esteve ótima. As batalhas com dinâmica de pokemons e cartas foram insanas e o desfecho certamente um dos mais grandiosos.

Alguns dos pontos que mais gostei neste volume foram:

  • Cuba pós-apocalíptica.
  • Mecânica inspirada em cartas colecionáveis.
  • Totens absurdos.
  • Samantha roubando cenas.
  • Grande aprofundamento emocional de Carl, Mordecai e outros personagens.
  • Meu favorito desde The Butcher’s Masquerade.

Livro 7This Inevitable Ruin

Gostei da dinâmica nova e mais aberta de um “war game” em mapa aberto. Gostei da questão das fações, como se aliam, como se eliminam. Tem uma dinâmica de escopo aberto bem interessante. O enredo é bem interessante, balanceando alguns problemas pessoais, técnicas interessantes de combate em massa e desenvolvimento dos personagens.

Alguns pontos de destaque:

  • Faction Wars.
  • A cidade de Lacarros como cenário de batalha final.
  • Política, alianças e traições.
  • Escala enorme sem abandonar os personagens.
  • Samantha continua brilhando.
  • Algumas partes longas por causa da logística da guerra.
  • Um dos melhores livros em termos de desenvolvimento emocional.

Livro 8A Parade of Horribles

Neste livro, temos os 10° e 11° níveis da masmorra “Dungeon Crawl World: Earth.” O décimo andar é uma espécie de corrida maluca com os Crawlers divididos em grupos que seguem fazendo corridas insanas em 7 etapas.

Aqui entram aspectos como veículos e montarias, e gremlins engenheiros para dar manutenção e upgrade nos veículos.

A ideia do andar é boa, mas durante a execução, algumas passagens ficaram cansativas. Uma coisa legal nesse livro foi ver um pouco mais dos Crawlers brasileiros, Osvaldo e Felipe… Pena que ele não explorou muito o fato da raça do Osvaldo ser curupira. O melhor é o nome do time deles, Team Flamengo, kkk. Hilário.

Uma história paralela que acontece é um “exploit” da masmorra para contrabandear crawlers para fora e salvar suas vidas. A masmorra continua sendo brutal e com altos níveis de mortalidade. Carl e Donut continuam no centro da história, acompanhados por aliados já conhecidos como Prepotente, Elle, Louis e Samantha.

Pontos de destaque:

  • Corrida maluca no décimo andar.
  • Veículos, montarias e gremlins mecânicos.
  • Participação divertida dos brasileiros e do Team Flamengo.
  • Exploração maior dos bastidores da resistência.
  • IA cada vez mais instável (e insana).
  • Mitologia da Scolopendra ganha destaque, mas foi um dos elementos que menos funcionou para mim.
  • Primeiro volume que realmente parece sofrer com excesso de extensão.

Se os livros 3, 4 e 5 mostravam uma série em plena ascensão, os livros 6, 7 e 8 mostram uma série tentando sustentar uma ambição cada vez maior. Nem tudo funciona perfeitamente, mas quando funciona, Dungeon Crawler Carl continua entregando alguns dos momentos mais criativos, emocionantes e absurdamente divertidos da fantasia contemporânea.

E mesmo quando tropeça no próprio tamanho, continua sendo uma das séries mais criativas e imprevisíveis que já li.

Hyperion – Dan Simmons

Version 1.0.0

É muito bom quando somos totalmente surpreendidos por um livro. Eu já tinha ouvido falar de Hyperion, mas o caos (e o Kindle Unlimited ) finalmente o trouxe para a frente da minha fila de leitura. Desculpem a informalidade, mas: que livro doido!

Alguns livros são bons. Outros são estranhos. Hyperion consegue ser os dois. E isso é o que o torna tão interessante.

Hyperion é um romance de ficção científica, vencedor do prêmio Hugo em 1990. Sua estrutura narrativa é inspirada em The Canterbury Tales, em que um grupo de peregrinos viaja e, a cada etapa da jornada, compartilha sua própria história.

Aqui, acompanhamos sete peregrinos que partem rumo ao planeta Hyperion, localizado nas bordas do “império” humano conhecido como Hegemonia. Confesso que o início me pareceu estranho e não me prendeu de imediato, mas isso muda completamente quando começam os relatos individuais. A primeira história já é excelente e estabelece o nível para as demais.

Alguns dos relatos têm um peso emocional inesperado. Um deles, em especial, é difícil de esquecer. O tipo de história que vai revirando suas entranhas… Cada história parece pertencer a um subgênero diferente, indo do horror ao drama, da ficção científica hard à reflexão filosófica.

A verdade é que Hyperion pode ser um livro desafiador — não exatamente por uma linguagem excessivamente rebuscada, mas principalmente pela escolha do autor de não explicar quase nada de início. O leitor é lançado em um universo estranho, inicialmente difícil de compreender. Aos poucos, conforme os peregrinos contam suas histórias, esse mundo vai se revelando, como um quebra-cabeça montado sem referência. Só mais perto do final começamos a entender melhor o todo.

Não é um livro fácil, mas é um livro que recompensa o leitor com uma experiência rara.

Nesta resenha, diferentemente de outras que já escrevi, optei por não explicar demais. Parte do encanto do livro está justamente em descobrir seus mistérios — ou melhor, seus vários mistérios — que não seguem uma estrutura totalmente linear.

O mais interessante é como cada relato transforma nossa percepção. Personagens que surgem de forma superficial — quase como rótulos — ganham profundidade, complexidade e novos significados. Essa mudança gradual de perspectiva é um dos pontos mais fascinantes da obra.

Para não ficar totalmente abstrato, vale mencionar alguns elementos do cenário: a história se passa muitos séculos no futuro, onde religiões da Terra, como o catolicismo e o judaísmo, ainda existem e desempenham papéis relevantes. A Hegemonia reúne dezenas de mundos colonizados, conectados por tecnologias avançadas — ainda que com limitações, especialmente nas regiões mais distantes. Inteligência artificial e ciberespaço também fazem parte desse universo.

E, claro, há o próprio planeta Hyperion — um lugar estranho, periférico, onde uma nova religião surgiu e onde eventos potencialmente decisivos para o destino da humanidade estão prestes a acontecer.

Antes que você vá correndo ler esse livro, vale avisar: ele não é totalmente conclusivo. Prepara o terreno para a continuação (que ainda não li). Ainda assim, a experiência é marcante. É o tipo de obra que reforça uma ideia que valorizo muito: a imaginação transforma. E aqui, ela transforma a forma como enxergamos personagens, mundos e até o próprio tempo.

24 Horas na Roma Antiga — de Philip Matyszak

Uma imersão no cotidiano que inspira mundos extraordinários.

Embora não seja uma obra de fantasia, 24 Horas na Roma Antiga oferece algo extremamente valioso para escritores do gênero: uma reconstrução vívida e acessível da vida urbana em um grande centro da Antiguidade. Através de uma narrativa que acompanha diferentes personagens ao longo de um único dia — como um vigilante/brigadista, um cliente bajulador de senador, um gladiador, uma escrava e uma virgem vestal — o autor constrói um mosaico dinâmico da sociedade romana.

O grande mérito da obra está na forma como transforma pesquisa histórica em experiência narrativa. Cada capítulo funciona quase como um microconto, permitindo ao leitor compreender não apenas os fatos, mas a sensação de viver naquela realidade — seus cheiros, tensões sociais, rotinas e perigos.

Para escritores de fantasia e ficção histórica, o livro se destaca como uma excelente referência de construção de ambientação. Ele demonstra como diferentes classes sociais interagem dentro de uma cidade complexa, como o espaço urbano influencia comportamentos e como pequenos detalhes do cotidiano podem enriquecer profundamente uma narrativa.

Outro ponto relevante é o uso de imagens e trechos de fontes históricas, que servem como ancoragem factual para as histórias ficcionalizadas. Isso reforça a credibilidade do texto e oferece ao leitor-escritor um vislumbre direto das bases reais que sustentam aquela reconstrução.

Mais do que um retrato de Roma, a obra funciona como um guia prático — ainda que indireto — sobre como dar vida a cidades em mundos fictícios. Ao observar como Matyszak organiza pontos de vista, rotinas e conflitos cotidianos, é possível extrair técnicas aplicáveis à criação de cenários ricos e convincentes.

Recomendado para: escritores, leitores de ficção histórica e autores de fantasia que desejam aprofundar a construção de mundos urbanos com maior realismo e densidade social.

A Neta da Estadista – Gerson Lodi-Ribeiro

Depois de muitos anos da publicação da história A Filha do Predador (1999 – Editora Writers), chegou sua sequência, trazendo mais um capítulo para as “Tramas de Ahapooka”. Neste estranho “planeta-armadilha”, naves de várias espécies são atraídas e acabam naufragando, sem depois conseguir escapar. Com o passar dos séculos, várias cidades e estados se estabelecem ali. O Predadores, são expoentes da atividade econômicas que se dedica a coletar materiais úteis dos frequentes naufrágios interestelares.

Voltamos a encontrar Clara, seu pai e o curioso alienígena John Smith numa expedição para conduzir um casal olduvaico recém-chegado até Rhea. Pandora e Talleyrand vêm de uma civilização humana avançada — a mesma dos avós de Clara — e chegam a Ahapooka na nave Penny Lane.

Depois do encontro inicial, começa a jornada para superar os perigos do planeta, em especial aqueles que encontrarão ao cruzar a temida Floresta Louca.

Trata-se de mais uma aventura em que o leitor é confrontado com o não familiar e com o estranhamento frequentemente presentes nas obras de Gerson Lodi-Ribeiro — aquilo que os leitores de ficção científica anglófonos costumam chamar de sense of wonder.

Nesta jornada, para Clara, além de enfrentar perigos, também se desenrola um processo de descoberta sobre sua própria natureza e suas origens. Aqui também reencontramos Spartacus e Europa, os avós da protagonista citados na história anterior e considerados em Rhea como grandes heróis.

Se o leitor já leu e apreciou A Filha do Predador, certamente vai gostar de A Neta da Estadista. Uma curiosidade adicional é que o romance A Guardiã da Memória (2015 – Editora Draco) também traz Clara como protagonista, já adulta e vivendo aventuras ainda mais complexas.

Assim, a nova história amplia o universo ficcional das “Tramas de Ahapooka” e reforça o talento do autor em criar cenários de ficção científica imaginativos, com foco no relacionamento entre personagens.

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