Depois de muitos anos da publicação da história A Filha do Predador (1999 – Editora Writers), chegou sua sequência, trazendo mais um capítulo para as “Tramas de Ahapooka”. Neste estranho “planeta-armadilha”, naves de várias espécies são atraídas e acabam naufragando, sem depois conseguir escapar. Com o passar dos séculos, várias cidades e estados se estabelecem ali. O Predadores, são expoentes da atividade econômicas que se dedica a coletar materiais úteis dos frequentes naufrágios interestelares.
Voltamos a encontrar Clara, seu pai e o curioso alienígena John Smith numa expedição para conduzir um casal olduvaico recém-chegado até Rhea. Pandora e Talleyrand vêm de uma civilização humana avançada — a mesma dos avós de Clara — e chegam a Ahapooka na nave Penny Lane.
Depois do encontro inicial, começa a jornada para superar os perigos do planeta, em especial aqueles que encontrarão ao cruzar a temida Floresta Louca.
Trata-se de mais uma aventura em que o leitor é confrontado com o não familiar e com o estranhamento frequentemente presentes nas obras de Gerson Lodi-Ribeiro — aquilo que os leitores de ficção científica anglófonos costumam chamar de sense of wonder.
Nesta jornada, para Clara, além de enfrentar perigos, também se desenrola um processo de descoberta sobre sua própria natureza e suas origens. Aqui também reencontramos Spartacus e Europa, os avós da protagonista citados na história anterior e considerados em Rhea como grandes heróis.
Se o leitor já leu e apreciou A Filha do Predador, certamente vai gostar de A Neta da Estadista. Uma curiosidade adicional é que o romance A Guardiã da Memória (2015 – Editora Draco) também traz Clara como protagonista, já adulta e vivendo aventuras ainda mais complexas.
Assim, a nova história amplia o universo ficcional das “Tramas de Ahapooka” e reforça o talento do autor em criar cenários de ficção científica imaginativos, com foco no relacionamento entre personagens.
Lançada em dezembro de 2025, Voltas ao Redor do Sol (2025) é uma antologia que celebra os 40 anos do CLFC — Clube de Leitores de Ficção Científica, entidade sem fins lucrativos criada por entusiastas do gênero em todo o Brasil. Não estava inicialmente na minha lista de leituras, mas a obra acabou chamando minha atenção no feed das redes sociais, especialmente pela presença de autores que já acompanho e admiro. A curiosidade falou mais alto — e foi uma boa escolha.
O prefácio, assinado pelo veterano Gerson Lodi-Ribeiro, cumpre muito bem seu papel ao apresentar o CLFC, trazendo curiosidades históricas e contextualizando a importância da iniciativa. É uma introdução que prepara o leitor para a diversidade de propostas e estilos encontrados ao longo da antologia. A seguir, faço comentários breves sobre cada conto.
Visões do Futuro – Gian Danton
Um conto bizarro e incômodo, no melhor sentido do termo. Acompanhamos duas mulheres que, precisando de dinheiro, atravessam a chamada Techno City, uma região da grande Belém marcada por som alto constante, ausência do Estado e criminalidade. A narrativa projeta um futuro estranho, mas assustadoramente ancorado no presente, em que espaços públicos são cada vez mais dominados pelo ruído incessante e pela erosão da civilidade.
A Torre de Cápsulas Mirai – Maira M. Moura
Aqui temos um conto sobre viagem no tempo e arquitetura, narrado de forma curiosa e deliberadamente ambígua. A autora aposta mais na atmosfera e nas ideias do que em explicações fechadas, convidando o leitor a preencher lacunas e refletir sobre o impacto das construções humanas no tempo.
Biomatos – David Machado Santos Filho
Um conto conceitual que propõe uma reflexão interessante sobre inteligência e consciência. A narrativa de um “mecano”, robô autoconsciente, sobre como criaram criaturas biológicas serviçais. Até que ponto estamos preparados para reconhecer formas de inteligência que não se encaixam nos modelos tradicionais?
O Sono do Relógio – Liana Zilber Vivekananda
Nesta ficção especulativa com forte diálogo com a mitologia grega, uma pessoa cética tem um encontro inesperado com o deus Cronos. Como não poderia deixar de ser, o tempo é o tema central, explorado aqui de forma simbólica e filosófica, equilibrando mito e especulação científica.
Por um Brasil Melhor – Gerson Lodi-Ribeiro
Misturando história alternativa do Brasil, elementos sobrenaturais, ficção científica e viagem no tempo, este é um conto ambicioso e muito bem executado. Apenas um dos autores mais experientes da FC brasileira conseguiria articular tantos elementos distintos em uma narrativa coesa e instigante.
A Cor dos Seus Olhos – Alexandre Oliveira Silva dos Santos
Este conto me lembrou a série Pluribus, ao lidar com a introdução de elementos orgânicos oriundos de fontes desconhecidas, analisados por cientistas e acompanhados por suas consequências sociais e individuais. É uma história que usa a ciência como ponto de partida para discutir transformação, estranhamento e impacto coletivo.
Amor: Uma Arqueologia – Fábio Fernandes
Um dos contos mais sensíveis da antologia. A história reconstrói a trajetória de uma família a partir de fragmentos, todos amarrados por um dispositivo capaz de acessar informações de realidades paralelas. O resultado é uma narrativa emocionalmente rica, que combina especulação científica e memória afetiva de forma muito eficaz.
Brazil, Feliz, Nem um Nem Bis – Ivan Carlos Regina
Ambientado em um Brasil futuro distópico, marcado por extrema disparidade social, o conto se divide em duas partes complementares, apresentando dois lados de uma mesma realidade. A estrutura reforça o impacto da narrativa e convida o leitor a refletir sobre desigualdade, perspectiva e pertencimento.
Sincronicidade – João Barreiros
Único conto de um autor português na antologia, Sincronicidade apresenta um futuro sombrio e utiliza um mecanismo narrativo engenhoso para conectar um projeto de exploração espacial a eventos tensos no campo da defesa militar. Uma história que trabalha bem tensão e paralelismos.
Arribação Rubra – Roberto Causo
Mais um excelente conto protagonizado por Shiroma (Bela Nunes), a matadora ciborgue do universo GalAxis. Aqui, vemos a personagem em uma situação extrema, lutando pela própria sobrevivência. É uma leitura dinâmica, que amplia um universo ficcional já consolidado da ficção científica nacional.
Voltas ao Redor do Sol é uma ótima porta de entrada para quem deseja conhecer autores de ficção científica que escrevem em língua portuguesa, além de ser uma excelente oportunidade para leitores experientes apreciarem histórias com forte identidade brasileira. A seleção de autores é muito bem equilibrada, com boa variação temática e estilística. Fica aqui também o reconhecimento ao organizador da obra, Rubens Angelo, pelo cuidado e pela curadoria desta antologia comemorativa.
Recentemente resenhei o primeiro livro da série, Alerta Vermelho, destacando a maneira singular com que Martha Wells apresentou ao leitor um protagonista artificialmente inteligente que, ao fugir do roteiro típico de IAs assassinas, conquista empatia com seu humor seco, suas contradições e um inesperado senso de propósito.
Na ocasião, também mencionei a adaptação da obra para a televisão pela Apple TV. Tive a oportunidade de assistir e recomendo, a apartação ficou muito boa! Acompanhou o tom e o espírito do livro — algo que me agradou bastante, pois conseguiu capturar a voz ímpar e o ritmo envolvente da narrativa original.
Em Condição Artificial, essa jornada continua, expandindo o universo da série sem perder o que fez Alerta Vermelho funcionar tão bem.
Investigando o passado, encontrando conexões
O robô-assassino, agora por conta própria, parte em busca de respostas sobre o evento que foi parcialmente apagado de sua memória e enteder se tem culpa pelo massacre de mineradores. Essa investigação pessoal dá à narrativa uma estrutura de busca existencial.
No caminho, a história toma uma direção ainda mais instigante: o protagonista cruza com outra inteligência artificial — o computador central de uma nave de exploração científica — e, mesmo partindo de concepções muito diferentes de “consciência” e “objetivos”, desenvolve com ele uma amizade que é um dos pontos mais interessantes do livro.
O que Martha Wells consegue fazer, de forma bastante convincente, é gerar empatia entre duas entidades artificiais de maneiras que parecem naturais ao leitor, sem humanizá-las demais. Cada IA mantém seus modos próprios de perceber o mundo, suas lógicas e limitações, e ainda assim é possível acompanhar o crescimento de uma relação que transcende simples cooperação funcional. Isso confere ao livro uma profundidade rara: não se trata apenas de aventura ou ação — trata-se do desenvolvimento de uma relação entre formas de consciência distintas.
Além dessa linha relacional entre as IAs, Condição Artificial continua a narrativa do protagonista investigando seu passado e, simultaneamente, se envolvendo com um grupo de humanos em uma missão de risco. Nesse novo relacionamento com um grupo de três humanas, vemos mais da personalidade do protagonista se desenvolver, tanto do lado do seu comportamento anti-social, como na dimensão em que desenvolve um pouco de seus sentimentos e humanidade. A mistura de ação, humor sutil e reflexão sobre identidade de seres artificiais mantém o ritmo ágil que tornou o primeiro livro tão cativante.
Sobre a série e a adaptação
A série literária Diários de um Robô-Assassino conta atualmente com sete volumes publicados, a maioria em formato de novelas curtas ou médios romances, começando por Alerta Vermelho (All Systems Red) e incluindo Condição Artificial, Rogue Protocol, Exit Strategy, Network Effect, Fugitive Telemetry e System Collapse.
A adaptação para TV, lançada globalmente na Apple TV em maio de 2025, estreou com a primeira temporada baseada no Alerta Vermelho e foi renovada para uma segunda temporada, o que indica a intenção de continuar adaptando os volumes subsequentes da saga para as telas.
Conclusão — Recomendo a leitura
Condição Artificial é uma sequência que honra e expande as qualidades do primeiro livro: é uma leitura envolvente, fluida e cheia de nuances. A autora consolida suas habilidades em criar não apenas cenas de ação, mas relações e perguntas que ficam com o leitor depois da última página.
Se você gosta de ficção científica que combina humor discreto, personagens não convencionais e reflexões sobre identidade e consciência — ou se, como eu, também gostou da adaptação televisiva — essa série é uma excelente pedida: rápida de ler, prazerosa e peculiar.
2025 foi um ano de muito trabalho, mas de produção literária pequena se comparada a de outros anos. Vamos falar das atividades aqui no blog, dos projetos literários e no final conto um pouco sobre algumas questões pessoais que me deixaram mais apertado este ano.
O Blog
Na atividade de resenhas do Selo Multiversos, tivemos certa quantidade e depois uma parada total.
Em primeiro de janeiro, começamos com a resenha de:
Novas do Purgatório, um romance de ficção científica do grande escritor Gerson Lodi-Ribeiro. A temática muito intrigante: inteligências artificiais fazendo o papel de divindades.
Como em 2024, não tive energia para resenhar vários livros que li, como o divertido Red Shirts, de John Scalzi. Mas recomendo a leitura, de qualquer modo.
Infelizmente, também, caiu o ritmo que vinha ganhando para criar artigos e movimentar as redes sociais do Selo-Multiversos e da Techno-Fantasy. O ritmo foi caindo até uma parada total no segundo semestre.
Em junho, participei da CDQCON levando como lançamento a HQ, Masmorra do Infinito, vol. 2 e a reimpressão de Tempestade de Ficção 1 (entre outros).
Participação da CDQCON – Junho 2025
Fiquei sem outros lançamentos até agora no final do ano, quando lancei O Mapa Estilhaçado, parte dois da série Espadas & Horrores.
Trabalhei no terceiro manuscrito de O Bruxo e a Foice Sombria, que tem boas chances de lançamento em 2026, tanto em português como em inglês.
Vários títulos com lançamento previsto para 2025 não aconteceram. Eu pretendia lançar a versão reescrita de Olhos Negros e Tempestade de Ficção 5, porém só concluí a escrita da quinta tempestade nos últimos dias de 2025. Não encontrei tempo para nova revisão e diagramação de “Olhos Negros 2.o”. Também não consegui lançar Keel #2 (em inglês) por problemas com a produção da versão remasterizada. Seguem com previsão para 2026.
“Tempestade 5” está escrito, mas precisa de revisão e produção de textos de apoio. Aqui vai uma preview da capa:
Terminei a reescrita de Maré Vermelha. Também trabalhei nas partes 3 e 4 de espadas & horrores.
2025, um ano desafiador
Imagino que todos saibam que o sustento da minha família vem de meu trabalho não ligado à literatura e quadrinhos. Meu ano de trabalho foi bem intenso, o que levou à redução dos meus projetos literários.
Quando escrevi o artigo, O Novo Selo Multiversos, em dezembro de 2024, ainda não fazia ideia do convite que receberia no início de janeiro e que transformou totalmente 2025. Naquele momento, estava projetando um ano animado para meus projetos literários, incluindo a produção de Masmorra do Infinito vol. 3. Mas a vida é assim, muitas vezes nossos planos mudam por condições inesperadas. Algo como o que aconteceu ao meu personagem Ilya Gregorvich, quando encontrou os tais “óculos indesejados”, causando uma reviravolta sua vida.
Recebi o convite nos primeiros dias de janeiro. Oportunidade de nova colocação profissional na posição de gestor de um setor novinho em folha. Por um lado foi estimulante, mas por outro consumiu grande parte da minha energia pessoal. Somado a isso, também tive uma importante alteração na rotina doméstica que também impactou no meu tempo livre. Outra coisa é que a dor crônica não me abandonou e nos momentos mais difíceis, cheguei a pensar numa “aposentadoria” e encerramento dos meus projetos literários.
Perspectivas para 2026
A tempestade passou. Estou um pouco melhor… Ano que vem continua com perspectiva desafiadora. Espero encontrar um maior equilíbrio em 2026 e sendo realista, reservar ao menos uma hora diária para os projetos literários. Pretendo retomar publicações na Techno-Fantasy, publicar Tempestade de Ficção 5, o Bruxo e a foice sombria e a terceira e quarta partes de Espadas & Horrores. Um mega projeto de escrita vai ser a reescrita do colossal, Oráculo Esquecido. Pretendo trabalhar no Tempestade de Ficção 6 e retomar a webcomic, Masmorra do Infinito. E qualquer outra coisa que as ondas do caos trouxerem… Muitas vezes não planejo, vem a inspiração e surge alguma obra nova, vamos ver.
Com consistência e persistência, acredito que conseguirei uma produção melhor e também trazer alguns lançamentos. Agradeço a você, que acompanha a nossa jornada!
É bom voltar a este mundo de ruínas antigas, conflito entre guildas, horrores ancestrais e pesadelos que insistem em despertar.
Com o lançamento de O Mapa Estilhaçado, a série Espadas & Horrores avança para sua segunda parte, dando continuidade aos eventos iniciados em A Tumba Grandiosa.
Nesta nova parte da série, voltamos a acompanhar Drhaff, a ladina estudiosa marcada pelo contato com forças antigas, e Rose Um’Yarg, a guerreira estrangeira cuja presença parece sempre atrair o extraordinário.
Mantendo o equilíbrio entre aventura, tensão, atmosfera sombria e uma pitada de humor, O Mapa Estilhaçado amplia o cenário apresentado no conto anterior. O veterano Raav e o mago nômade Zjian se juntam a Rose e Dhraff numa perigosa missão. Enquanto as barreiras entre as dimensões estão abaladas, cada descoberta carrega um preço.
Quando comecei esse projeto, minha intenção era prestar uma homenagem direta à tradição da espada e feitiçaria — em especial ao escritor Fritz Leiber e à sua clássica dupla, Fafhrd e o Gray Mouser. Histórias de aventura, perigo e exploração, onde o heroísmo é imperfeito e o mundo reage às escolhas dos personagens.
Outra fonte de inspiração veio de uma antiga campanha de RPG que girava em torno da exploração da Tumba Grandiosa, a maior e mais famosa catacumba daquele mundo.
Minha ideia inicial era escrever alguns contos ambientados nesse cenário, sem a obrigação de seguir os mesmos personagens ou uma linha narrativa contínua. No entanto, ao apresentar Rose Um’Yarg e Drhaff, algo mudou.
Gostei tanto da dinâmica entre Rose e Drhaff que, ao escrever as partes seguintes, percebi que estava criando não apenas contos independentes, mas um romance seriado. Com três partes já escritas e a quarta em desenvolvimento, ficou claro que essa história pede fôlego maior. Ainda assim, cada parte é pensada para funcionar num pequeno arco narrativo com espaço para continuidade e expansão.
Não sei ainda quantas partes essa série terá. Pode terminar em oito, quinze ou seguir por ainda mais caminhos. Esse é um projeto que cresce conforme é escrito, guiado pela curiosidade, pelo risco e pelo prazer de explorar mundos imaginários sem rotas seguras.